O trote como ritual de passagem em uma cultura canibal

Filipe Ceppas, Franklim Drumond de Almeida

Resumen


A história da universidade de origem europeia coexiste com a história do trote. Este artigo propõe uma leitura filosófica do trote universitário como rito de passagem sacrificial que expressa o funcionamento simbólico de uma cultura canibal contemporânea. Ao mobilizar os aportes teóricos da antropologia de Arnold van Gennep e da filosofia da diferença de Jacques Derrida, argumentamos que o trote universitário reproduz estruturas rituais de separação, purificação e assimilação que operam como modo de simbolizar a violência da desigualdade social. A prática é interpretada como mecanismo simbólico de incorporação, pelo qual o calouro, transformado em vítima, é integrado à comunidade acadêmica por meio de atos que encenam uma devoração. Ao final, a análise revela como o trote expressa a lógica meritocrática instalada em instituições públicas e seus efeitos subjetivos ao reproduzir hierarquias simbólicas.

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